quinta-feira, 16 de maio de 2013

Profissão Professor



Profissão Professor – António Nóvoa

A obra revela uma grande pluralidade de pontos de vista sobre a profissão professor. Reunindo contribuições de autores de vários países, o livro procura pôr à disposição do leitor uma reflexão útil para pensar a situação atual dos professores. Inicialmente, a função docente desenvolveu-se de forma subsidiária e não especializada, constituindo uma ocupação secundária de religiosos ou leigos das mais diversas origens. No início do século XVIII havia já uma diversidade de grupos que encarnavam o ensino como ocupação principal, exercendo-a por vezes a tempo inteiro. A intervenção do Estado vai provocar uma homogeneização, bem como a unificação e uma hierarquização à escala nacional, de todos estes grupos: é o enquadramento estatal que institui os professores como corpo profissional, e não uma concepção corporativa do ofício.
      Ao final do século XVIII o Estado cria uma licença, que é concedida na sequencia de um exame que pode ser requerido pelos indivíduos que preencham um certo número de condições (habilitações, idade, comportamento moral, etc.). a criação desta licença (ou autorização) é um momento decisivo do processo de profissionalização da atividade docente, uma vez que facilita a definição de um perfil de competências técnicas, que servirá de base ao recrutamento dos professores e ao delinear de uma carreira docente. Na segunda metade do século XIX, os professores são vistos como indivíduos entres várias situações: não são burgueses, mas também não são povo; não devem ser intelectuais, mas têm de possuir um bom acervo de conhecimentos; devem manter relações com todos os grupos sociais, mas sem privilegiar nenhum deles; não exercem o seu trabalho com independência, mas é útil que usufruam de alguma autonomia; etc. Estas perplexidades acentuam-se com a feminização do professorado, fenômeno que se torna bem visível na viragem do século e que introduz um novo dilema entre as imagens masculinas e femininas da profissão.
    A crise da profissão docente arrasta-se há longos anos e não se vislumbram perspectivas de superação a curto prazo. As consequências da situação de mal-estar que atinge o professorado estão à vista de todos: desmotivação pessoal e elevados índices de abandono, insatisfação profissional traduzida numa atitude de desinvestimento e de indisposição constante (face ao ministério, aos colegas, aos alunos, etc.), recurso sistemático a discursos-alibi de descupabilização e ausência de uma reflexão crítica sobre a ação profissional, etc. A educação é objeto de um amplo debate social, graças ao qual se constroem crenças e aspirações que formulam diferentes exigências em relação ao comportamento dos professores. A expressão mal-estar docente emprega-se para descrever os efeitos permanentes, de caráter negativo, que afetam a personalidade do professor como resultado das condições psicológicas e sociais em que exerce a docência, devido à mudança social acelerada. É possível enumerar, pelo menos, doze indicadores básicos, que resumem as mudanças recentes na área da educação. Os nove primeiros referem-se ao desenvolvimento de novas concepções da educação, que se reportam ao contexto social da função docente, apesar de terem uma forte incidência na atuação do professor na sala de aula. Os três últimos referem-se a variações intrínsecas ao trabalho escolar.
     Uma ideia geral para sintetizar a papel destes fatores contextuais em relação ao desenvolvimento da função docente: a mudança acelerada do contexto social influi fortemente no papel a desempenhar pelo professor no processo de ensino, embora muitos professores não tenham sabido adaptar-se a estas mudanças, nem as autoridades educativas tenham traçado estratégias de adaptação, sobretudo a nível de programas de formação de professores. O resultado mais evidente é o desajustamento dos professores relativamente ao significado e alcance do seu trabalho.






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