Profissão
Professor – António Nóvoa
A
obra revela uma grande pluralidade de pontos de vista sobre a profissão
professor. Reunindo contribuições de autores de vários países, o livro procura
pôr à disposição do leitor uma reflexão útil para pensar a situação atual dos
professores. Inicialmente,
a função docente desenvolveu-se de forma subsidiária e não especializada,
constituindo uma ocupação secundária de religiosos ou leigos das mais diversas
origens. No início do século XVIII havia já uma diversidade de grupos que
encarnavam o ensino como ocupação principal, exercendo-a por vezes a tempo
inteiro. A intervenção do Estado vai provocar uma homogeneização, bem como a
unificação e uma hierarquização à escala nacional, de todos estes grupos: é o
enquadramento estatal que institui os professores como corpo profissional, e
não uma concepção corporativa do ofício.
Ao
final do século XVIII o Estado cria uma licença, que é concedida na sequencia
de um exame que pode ser requerido pelos indivíduos que preencham um certo
número de condições (habilitações, idade, comportamento moral, etc.). a criação
desta licença (ou autorização) é um momento decisivo do processo de
profissionalização da atividade docente, uma vez que facilita a definição de um
perfil de competências técnicas, que servirá de base ao recrutamento dos
professores e ao delinear de uma carreira docente. Na
segunda metade do século XIX, os professores são vistos como indivíduos entres
várias situações: não são burgueses, mas também não são povo; não devem ser
intelectuais, mas têm de possuir um bom acervo de conhecimentos; devem manter
relações com todos os grupos sociais, mas sem privilegiar nenhum deles; não
exercem o seu trabalho com independência, mas é útil que usufruam de alguma autonomia;
etc. Estas perplexidades acentuam-se com a feminização do professorado,
fenômeno que se torna bem visível na viragem do século e que introduz um novo
dilema entre as imagens masculinas e femininas da profissão.
A
crise da profissão docente arrasta-se há longos anos e não se vislumbram
perspectivas de superação a curto prazo. As consequências da situação de
mal-estar que atinge o professorado estão à vista de todos: desmotivação
pessoal e elevados índices de abandono, insatisfação profissional traduzida
numa atitude de desinvestimento e de indisposição constante (face ao
ministério, aos colegas, aos alunos, etc.), recurso sistemático a
discursos-alibi de descupabilização e ausência de uma reflexão crítica sobre a
ação profissional, etc. A educação é objeto de um amplo debate social, graças
ao qual se constroem crenças e aspirações que formulam diferentes exigências em
relação ao comportamento dos professores. A
expressão mal-estar docente emprega-se para descrever os efeitos permanentes,
de caráter negativo, que afetam a personalidade do professor como resultado das
condições psicológicas e sociais em que exerce a docência, devido à mudança
social acelerada. É possível enumerar, pelo menos, doze indicadores básicos,
que resumem as mudanças recentes na área da educação. Os nove primeiros
referem-se ao desenvolvimento de novas concepções da educação, que se reportam
ao contexto social da função docente, apesar de terem uma forte incidência na
atuação do professor na sala de aula. Os três últimos referem-se a variações
intrínsecas ao trabalho escolar.
Uma
ideia geral para sintetizar a papel destes fatores contextuais em relação ao
desenvolvimento da função docente: a mudança acelerada do contexto social
influi fortemente no papel a desempenhar pelo professor no processo de ensino,
embora muitos professores não tenham sabido adaptar-se a estas mudanças, nem as
autoridades educativas tenham traçado estratégias de adaptação, sobretudo a
nível de programas de formação de professores. O resultado mais evidente é o
desajustamento dos professores relativamente ao significado e alcance do seu
trabalho.
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